Eu vi o Caos num café

Um ser de substância magnética, olhar oco mas profundo, olhos de nada, negros e intensos como um buraco negro, consegui o olhar por um segundo e qualquer milissegundo a mais seria demais, um tormento. Usava uma longa veste fluída acinzentada, não parecia andar, mas volitar pelo recinto. Eu percebi, bem atentamente, que quando ele entrou na cafeteria onde eu estava, uns dois ou três olhares se voltaram para ele, enquanto a maioria o ignorou ou nem o notou. Eu não podia parar de pensar naquela criatura, não sei se era homem, não sei se era mulher, não sei se era humano. 

Sentou-se em uma mesa sozinho, bebia café (ou chá) numa taça negra. Eu não o vi pedir nada no balcão, e ainda ali ele estava com sua bebida quente, numa taça que não era do local. No mínimo, estranho. O ser parecia olhar fixamente para um ponto, ao mesmo tempo que parecia não olhar para nada. Me intrigou bastante e eu não conseguia ignorá-lo. Até queria ter coragem o suficiente para ir sentar perto dele ou até lhe perguntar algo. Mas algo me impedia, medo talvez, e o fato de que eu não conseguia o olhar por mais um segundo. 

Mas como eu poderia deixar passar essa oportunidade? A vida toda parecia que eu queria experienciar algo sobrenatural, e quando parecia que a oportunidade estava ali, sentada a menos de vinte metros de mim, eu estava com medo? O que mais me impedia de ir até lá? A possibilidade do meu mundo desabar ao entrar em conflito com ideias tão diferentes? E se ele tivesse alguma verdade incontornável para me contar? E se tudo que eu queria saber não era possível de ser sabido? E se eu fosse apenas ignorada? 

Eu não tive coragem de ir falar com ele naquele momento. Mas havia uma pessoa sentada na mesa ao lado, uma mulher de uns cinquenta anos. Nossas mesas estavam quase coladas. 

„Oi, tudo joia?“ É sempre desafiador começar um dialogo com um estranho, mas alguém precisava começar.

Ela sorriu e respondeu meu oi de volta.

„Desculpa te incomodar assim, mas você também notou aquele ser ali sentado? Aquele sem olhos, aquele de sorriso macabro mesmo quando não está sorrindo, aquele que parece perdido ao mesmo tempo que carrega todas as respostas?“ 

Ela fez que sim com a cabeça. Pelo seu olhar, parecia que ela o conhecia bem.

„Você é nova por aqui, né?“ 

De fato, era a primeira vez que frequentava aquela cafeteria, e aquele bairro também não era onde eu sempre costumava andar.

A mulher continuou:

„É um Louco, o Caos em pessoa. Dizem que quem conversa com ele nunca volta o mesmo. Ele não fala com a boca, mas transmite seus pensamentos. Então, sem dizer nem perguntar nada, você já tem a sensação de ter tudo mudado. Basta olhar pra ele por um longo instante.“ 

„Eu não consigo olhar na direção dele por mais de um segundo.“ 

„É claro que não! As pessoas se protegem intuitivamente de tão iminente perigo.“ 

„Mesmo assim, que vontade de ir lá falar com ele!“ Esperava que ela fosse me contar a história de alguém que já falou com a figura enigmática. Procurava respostas sobre o que ele era, mas na verdade aquela conversa só me deixava mais curiosa ainda de ir me aproximar dele.

A mulher me alertou severamente que eu não deveria ir até lá. O medo vem por um bom motivo, ela disse. Mas algo em sua aura era tão conectado comigo. Eu poderia me ver sem chão. Mas meu sonho sempre foi voar até o sobrenatural.

E ali estava o jogo da dualidade: a segurança do que eu criei até aqui ou a fagulha perigosa e desatinada da vontade do conhecimento oculto. Que vontade inesgotável de andar pelo perigoso caminho do desconhecido. Eu poderia agora mesmo continuar a beber meu café quente com mel, apenas o vislumbre daquele ser me bastaria uma reflexão, que provavelmente poderia ser esquecida nas próximas semanas. Ou poderia ir até lá e descobrir o que se bebia naquela taça preta. 

Levantei da cadeira, iria em rumo ao ser. De repente, parece que a cafeteria toda iria me olhar, assustados, iriam me criticar e pensar o que de mim? Viraria centro das atençōes, a pessoa que desafiou o nada. E se fosse humilhada ali mesmo, se ele se recusasse a falar comigo? E ai, será que aguentaria meu ego esse fiasco social? Que risco. Mas e dai, talvez fosse mesmo constrangedor, mas ali as pessoas riem e depois esquecem. E além do mais, eu haveria feito aquilo que todos queriam fazer mesmo, um ícone, mesmo que um ícone humilhado. 

Já estava em pé mesmo. Comecei a me movimentar na direção daquilo. Olhei ao redor, ninguém me olhava, ninguém notou meu movimento, os que estavam lendo, continuavam a ler, os que conversavam, continuavam a conversar, os que apenas olhavam adiante, continuaram a olhar adiante. Mesmo a mulher ao meu lado que me alertou, mesmo ela parecia nem ter notado que eu me movia em direção aquilo que ela mesmo chamou de amaldiçoado. Pensei em cutucá-la e dizer „Olha só a loucura que estou fazendo!“ Mas o silêncio e a aparente capa de invisibilidade que eu parecia usar era até confortável. 

Eu já estava tremendo. Havia uma cadeira vazia naquela mesa e me sentei, sem pedir licença. Sentei sem nem mesmo perguntar se podia. Aliás, como perguntaria? O tempo todo eu não o olhava, olhar desviado o tempo todo. Que momento, que ideia inusitada. Eu ali sentada com o poder mais sobrenatural, que nem nos meus mais malucos sonhos ou pesadelos jamais poderia imaginar. Ele era presença. Fortíssima. 

Meu coração acelerado e congelado ao mesmo tempo. Mesmo se quisesse, não seria possível soar voz alguma ali. Mas parece que ele lia e transmitia pensamentos. Shh. Fiquei em silêncio, para ver se ouvia algo dele. De repente, todo o barulho, a música, as conversas paralelas no café, tudo aquilo parou, de uma vez. Silêncio absurdo. Como que sem querer, minha cabeça foi como que virada por uma força maior, e eu o olhei. Transcendência. O que foi aquilo???

E o que ecoava era „Eu sou você“ 

Mais do que unidos naquele momento, senti que estávamos – e sempre estivemos – unidos pela eternidade e desde sempre. 

Eu que vim antes do verbo, trouxe mais do que planos – trouxe possibilidades

Sou silêncio que grita. Estou perdido até você me encontrar. 

Já pensei em tudo, ao mesmo tempo que sou nada. 

E a imagem que veio a minha cabeça foi a de um círculo, forças que se moviam circularmente. Partículas apareciam e desapareciam a todo momento. 

De repente, voltei a realidade. Estava de volta na cafeteria. Com uma sensação estranha. Aquele ser ainda ali, e ainda não conseguia o olhar diretamente como sempre. Ao seu redor, parecia haver uma ondulação, como que se o ar ao passar por ele ficasse mais denso. 

Levantei-me e fui embora. 

Ainda naquele dia, em casa, ideias não paravam de me ocorrer à mente. 

Aquela figura representava o nada que contém o todo. Após aquele encontro, sentia um entusiasmo mais forte pela vida, pois ele era a potência que me faltava. Que apresenta a possibilidade de vagar sem regras, ele me parecia distante da realidade e alheio a qualquer tempestade moral, aliás, parecia estar muito além disso tudo. Parecia mudar e se adaptar ao mesmo tempo que continha em si todas as verdades e todas as leis. 

Um enigma misterioso. Se tudo surgiu do nada, e daquele nada tudo veio. Então, estaria contido nele todo o amor, toda a piedade, tudo de bom do Universo? O Chaos seria então o bem puro? Mas tudo ainda em forma não manifesta, apenas como semente de possibilidade?

O Chaos me falou aquele dia e o que ficou mais presente em mim, além da volta do entusiasmo, foi a esperança. 

„A esperança não é filha da ordem, ela é minha irmã. Eu sou o Chaos.“ 

Aquela imagem sombria parecia se comunicar comigo, em sonhos, em momentos de distração. Foram umas duas ou três visōes. Essa foi uma delas.

Outro dia acordei no meio de um sonho, o sol já brilhava forte no quarto, e a falta de cortinas fez com que eu acordasse com aquela luz forte na minha cara. O sonho ainda era fresco em minha mente:
Eu estava mergulhada em águas escuras, nessas águas haviam também partículas brilhantes, partículas prateadas. Essa água estava em movimento, me levava, eu era carregada e era como se estivesse mergulhando nesse abismo, mas não sentia nenhuma falta de ar. Conforme nadava, algo ia se comunicando. 

Você me teme porque não me pode nomear,

mas eu não sou destruição

sou tudo antes de ser forma.

E toda luz que virá,

já existe no fundo, aqui,

comigo.“

Muitas reflexões me habitam desde esses episódios. O Chaos me falava de esperança, de potencialidade mas também de fé. Era aparentemente possível poder acreditar e organizar aquela energia para a criação. 

Fiquei pensando será que do Caos viemos e ao Caos voltaremos? 

E sim, ele me disse (e essa foi a última vez que tive uma visão), do pó viemos e ao pó voltaremos; e esse pó é sagrado, peças de um tabuleiro eterno. Sou eu que torno isso possível, mas eu não sou a lei, apenas uma manifestação dela. 

Depois de algumas semanas, meses talvez, que não tive mais nenhuma visão, e que toda aquela sensação fortíssima de ter o encontrado ia se dissipando fui ficando um pouco aborrecida. Queria poder continuar essa jornada maluca e misteriosa. Fui novamente ao bairro, naquela mesma cafeteria. Mas lá o ar parecia estar diferente, tudo normal. Andei pelas ruas daquela região, nada, tudo normal como sempre foi e nenhuma pista do ser misterioso. Mas eu não tinha delirado não, aquilo tudo aconteceu!

Não sou lá muito de iniciar conversas mas eu queria muito saber. Se aquela mulher da mesa ao lado o conhecia, mais alguém o deveria conhecer. Fui passando pelas casas, observando tudo, qualquer pessoa distraída que parecesse local eu iria perguntar. Então havia um homem, já idoso, sentado em uma cadeira de madeira em frente a uma casa, estava fumando um cigarro. 

„Oi, senhor. Tudo bem? Então, deixa eu ir direto ao ponto…“ 

Descrevi a figura pela qual eu estava procurando, quem sabe ele o conhecia. 

„Ah, o louco, aquele maluco que passa por aqui? Sim sim…“ E ele começou a rir…

A conversa foi longe, me contou várias histórias. 

„Aquele louco tinha um cachorro parecido com ele, o cachorro parecia ser feito de fumaça, ele nem sempre está com o cachorro, mas quase sempre. Outro dia passeando com aquele animal estranho, o sujeito tira do bolso um biscoitinho, daqueles de cachorro mesmo, e dá para o amigo de quatro patas. Mas não é que aquilo não era biscoito de cachorro coisa alguma, era um fragmento do tempo linear. Desde aquele dia algumas pessoas sentem lapsos temporais, como se tivessem vivendo uma coisa pela segunda vez, já vi chamarem o fenômeno de deja-vu.“ 

E outra história do caótico maluco:

„Ele costumava ir fazer comprar no mercadinho do João, eis que um dia ele compra uma quantidade anormal de pizza congelada, no total 36 pizzas, pagou tudo com moedas de um centavo. Depois de uma meia hora, ele aparece com as pizzas todas assadas, ele as coloca no telhado do mercado, sobe até lá e come essas pizzas enquanto assiste o eclipse solar.“ 

„E mais essa: esse sujeito queria encontrar uma nova ideia de negócios. É um sujeito cheio de ideias mas pouca noção. Decidiu criar um curso de cerâmica, durou três horas, ele é tão atrapalhado que usou o barro mágico com os alunos, e eles, assim, sem querer criaram objetos com vida própria. Por falta de opção, ele teve que adotar uma xícara, uma taça e um vaso como seus novos animais de estimação.“ 

Eu dei boas risadas das histórias caóticas. 

E no final de tudo entendi uma coisa, com a força primordial do caos podemos juntar a fé e a auto-confiança e sermos co-criadores, com essa energia bem conduzida nos tornamos Magos. 


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