A Necessidade De Habitar

𝕾𝖊 𝖆 𝖗𝖊𝖙𝖆 é 𝖔 𝖈𝖆𝖒𝖎𝖓𝖍𝖔 𝖒𝖆𝖎𝖘 𝖈𝖚𝖗𝖙𝖔 𝖊𝖓𝖙𝖗𝖊 𝖉𝖔𝖎𝖘 𝖕𝖔𝖓𝖙𝖔𝖘, 𝖆 𝖈𝖚𝖗𝖛𝖆 é 𝖔 𝖖𝖚𝖊 𝖋𝖆𝖟 𝖔 𝖈𝖔𝖓𝖈𝖗𝖊𝖙𝖔 𝖇𝖚𝖘𝖈𝖆𝖗 𝖔 𝖎𝖓𝖋𝖎𝖓𝖎𝖙𝖔.

Oscar Niemeyer

A necessidade de habitar e o imenso desejo de criar. Para sua sobrevivência o ser humano construiu habitações para que pudesse descansar com mais segurança. Mas além da capacidade de construir há também no ser humano a capacidade de conceber obras de arte, através de sua criatividade inerente, foi-se aprimorando técnicas a fim de transformar mentalizações criativas em arte concreta. O dom de construir sempre exerceu fascínio, desafiando leis físicas e impactando seu ambiente, o ser humano foi moldando a sociedade e a forma que ela foi erguida.

Para que possamos construir com maestria precisamos, antes de tudo, conhecer os limites naturais. “A obra humana, é preciso torna-la solidária com a obra natural. A natureza nos fornece ensinamentos ilimitados. A vida aí se manifesta; a biologia reúne suas regras.” (Le Corbusier, Manière de penser l’urbanisme, Paris, Gonthier, 1966, pp. 27-28, 44.) A arquitetura é manifestação de arte, é abstrata e contempla a imaginação humana, deve estar em consonância com a natureza para    que perdure; na arquitetura é preciso ir além da técnica para criar, é preciso buscar a alma humana na criação. A criação arquitetônica deve estar também sempre atualizada ao tempo que é concebida. “Estar à altura de traduzir os costumes, as ideias, o aspecto de minha época, segundo a minha apreciação, ser não apenas um artista, mas também um homem; fazer arte viva, eis o meu objetivo.” (Catálogo da exposição Exhibition et ventre de 40 tableaux et 4 dessins de M. Gustave Coubert, Paris, 1855). É preciso projetar para que a obra esteja em sintonia, esteja em osmose com seu ambiente, mas isso não quer dizer que ela deva estar camuflada ou estática, o movimento da arte se dá pela protuberância, salientando aquilo que o imaginário sonhou.

Desde que o ser humano habita a Terra ele pratica a arte de habitar. “Em virtude das alterações que se verificaram no clima da Terra, as temperaturas eram muito baixas, obrigando os grupos humanos a viver em cavernas.” (Duílio Battinstoni Filho – Pequena História da Arte, Editora Papirus, Campinas, SP, 1987, pg. 15). Na Era da Pedra Lascada o homem conheceu o fogo e assim pode ir aperfeiçoando suas técnicas em todos os campos. Na Era Paleolítica já foi possível construir cabanas mais sofisticadas, cobertas com peles de animais ou folhas, e até ornar seu interior com as artes rupestres. No Neolítico o homem vai deixando de ser nômade, começa o cultivo de subsistência e lentamente vai desenvolvendo o conceito de cidade. Nesse período já se começa a construir com madeira, a esculpir divindades nas pedras, cerâmicas de diversas formas tornam-se comuns, cada vez mais elaborados.

Com o passar da evolução humana, foi sendo necessário cada vez construir com mais complexidade. A construção deixou de ser obra da necessidade básica de morar e passou a ter várias faces, servindo para adorar os deuses, enterrar os mortos ou mesmo sendo um modo do rei (faraó, governantes, etc.) mostrar seu poder, erguendo verdadeiros monumentos de pedra. Os egípcios foram claros exemplos disso, construindo pirâmides, templos e ornamentos de verdadeira complexidade técnica e artística. Por volta de 4 mil anos a.C. esse povo já havia começado sua encantadora técnica construtiva, que nos fascina e indaga até hoje.

Partenon, Atenas

No período arcaico, na Grécia Antiga, construções de pedra, madeira e terracota foram feitas, como o famoso Pártenon, em Atenas, criado para simbolizar a vitória grega sobre os persas. A arquitetura grega era majoritariamente horizontal, sobre colinas, e dividido em tipos arquitetônicos, a saber, dórico, jônico e coríntio. Já no período helênico da arte grega, a arquitetura assume formas mais majestosas, com edifícios enormes e de função pública da pólis. A sociedade foi requerendo cada vez mais a habilidade construtiva, não só para moradia familiar, mas agora também à serviço da comunidade. Bibliotecas, sedes administrativas, teatros, dentre outras obras, foram tomando forma conforme os gregos evoluíam sua estrutura social.

Na Idade Média o caráter cristão das obras foi extremamente significativo, sendo as maiores obras Igrejas Cristãs. No período medieval sobressaíram a Arte Bizantina, a Arte Árabe e a Arte Gótica. Maravilhosas construções, como a Igreja de São Marcos (Veneza) e Notre-Dame (Paris), foram edificadas nessa altura.

Igreja de São Marcos, Veneza.

Após a Idade Média houve um renascimento na Europa, fortalecendo a burguesia e ampliando o conceito de cidade e trazendo o renascimento artístico e cultural. O Renascimento busca na Arte Clássica suas referências, trazendo de volta o espírito da arte greco-romana. “O maior exemplo da arquitetura renascentista é a basílica de São Pedro em Roma, construída no local (1506) onde estava situada a antiga Basílica do imperador Constantino, por ordem do papa Júlio II.” (Duílio Battinstoni Filho – Pequena História da Arte, Editora Papirus, Campinas, SP, 1987, pg. 66).

Basílica de São Pedro, Vaticano.

Em seguida do Renascentismo veio o Barroco, trazendo mais liberdade de criação, com mais irregularidades e menos simetria. “Os grandes temas da arquitetura barroca são exatamente três: a cidade, a igreja e o palácio.” (Duílio Battinstoni Filho – Pequena História da Arte, Editora Papirus, Campinas, SP, 1987, pg. 77). Nessa altura a grande suntuosidade dos palácios era o que encantava a todos. Sendo o símbolo de poder do Estado, era ornamentado com magnificente decoração e opulentos jardins, como no Palácio de Versalhes, na França. No Brasil, as Igrejas Barrocas eram requintadas e luxuosamente embelezado com ouro puro. O embelezamento das Igrejas mostrava a figura central da religião, assim como o requinte dos palácios mostravam o poder da família real.

Versailles, jardim.

Em seguida do movimento artístico Barroco veio a arquitetura Neoclássica, surgindo na Europa por volta de 1750, durante até meados do século XX. Seu objetivo era o resgate aos valores estéticos da Antiguidade Clássica, entendida como Grécia e Roma, devido a oposição aos estilos até então vigentes como o Barroco e o Rococó, julgados pelos críticos da época como exagerados, por isso, sem a referência ao clássico. Foi sob este contexto que o Neoclássico se desenvolveu, tendo como principal obra de referência “a Villa Capra, de 1566, de Andrea Palladio. ”.

Villa Capra, de Andrea Palladio

A arquitetura Neoclássica traz como características, o uso de balaustres, platibandas, frontões, pilares e colunas, referência aos templos antigos e a escala monumental, trazendo solidez e sobriedade. A clareza construtiva, simetria, uniformidade, também eram as características do Neoclássico, tendo a valorização de projetos arquitetônicos quadrados, retangulares ou centrados. Napoleão Bonaparte, em 1804, assumiu o estilo Neoclássico, como símbolo de seu poder. Lembrando que o termo Neoclássico só viria surgir em 1830, pois antes era chamado de Purista.

Após o Neoclássico veio a Romancista, que trouxe vários movimentos artísticos como, Neogótico, Neorromânico, Neobarroco e Neomourisco. A arquitetura Romancista também conhecida como arquitetura Romântica nasceu entre os séculos XVIII e XIX. Esse movimento é o contrário do Neoclássico, pois tem características em aspectos excêntricos e inusitados, que fugiam das simetrias e uniformidades. Como não possui ordem, simetria ou proporção, esse movimento trabalhava com irregularidade espacial e volumétrica, elementos pitorescos na decoração e uso de cores. Apesar desse movimento arquitetônico não ter sido tão marcante, teve grandes e belas obras, especialmente no Brasil, a Catedral da Sé, em São Paulo, é uma das obras mais famosas do estilo.

Catedral da Sé

O início da Arquitetura Moderna vem junto com a Revolução Industrial em meados do século XVIII. A importância da Revolução Industrial para arquitetura moderna é pelo fato de que com a chegada de maquinas a vapor, as pessoas saindo do campo e indo para as cidades, outros tipos de materiais começam a ser mais usados nas obras, como o aço, vidro e concreto armado (industrializados, padronizados e econômicos). Nessa época aparece o movimento Ecletismo, que foi um momento importante na arquitetura, tendo um rompimento entre a arquitetura e a engenharia, arquitetos dessa época tendo que se apropriar desses novos materiais relacionados as novas tipologias, porém os engenheiros despontaram nesse primeiro momento no Ecletismo, criando a famosa Arquitetura de Ferro. Exemplo dessa arquitetura é o Palácio de Cristal, de 1851, de Joseph Paxton, uma curiosidade é que essa obra abrigou a primeira exposição universal na Inglaterra. O Palácio de Cristal era totalmente feito ferro fundido e vidro, e totalmente itinerante, através dessa grandiosa obra percebe-se a tamanha evolução da engenharia e arquitetura da época.

Palácio de Cristal de Joseph Paxton

O edifício contava com 564 metros de comprimento com um pé direito de cerca de 33 metros. Uma construção que remetia a edifícios maiores, todavia completamente distantes dos grandes arranha céus que já eram construídos na época. Em 1936, após uma serie de tentativas de restauração, um grande incêndio dizimou a edificação que não estava assegurada, portanto, impedindo assim sua reconstrução.

Após a influencia da revolução industrial, que trouxe o que chamamos de arquitetura moderna, tem se início a arquitetura contemporânea, que busca o reaparecimento de linguagens “projetuais” com uma forte ligação com o racionalismo e com tendências minimalistas. Esse movimento ganhou força nos anos 80 e inicio dos anos 90, pois a arquitetura busca influências do passado, seja através dos próprios estilos, ou de releituras. Esse estilo possui uma característica principal de linhas retas, parte de um pressuposto modernista, mas seu resultado final acaba sendo contemporâneo, pois conta com uma mistura de vários materiais construtivos. Um outro aspecto que pode ser claramente observado é o pé direito das construções que costuma ser bastante elevado. A arquitetura contemporânea trouxe novas formas de se construir com novas tecnologias, sendo vendida aos olhos do consumidor, ou seja, explorando a beleza da obra a fim de ter uma aceitação para quem observa. É uma arquitetura com uma mistura de estilos, sempre procurando inovar porém com grandes influências do passado.

            Certamente o processo de criação passa por influências e inspirações. Um amplo conhecimento da História da Arte é quase inevitável para que se possa imaginar com uma gama maior de opções. O desenvolvimento da arte construtiva passa por diversas etapas até chegar em sua conclusão. Determinar as referências desejadas parece ser um bom primeiro passo.

            Desde a Antiguidade Clássica até o mais Moderno, toda a Arte, seja ela arquitetura, escultura, pintura, etc. podem servir de ferramenta essencial no desenvolvimento do projeto. Conhecer várias vertentes permite abrir os horizontes e a mistura de estilo leva à individualidade do projeto. “A História da arte da Antiguidade deve-se dotar de grande rigor a fim de recuperar seu prestígio.” (História da Arte – Xavier Barral I Altet – Papirus Editora – Campinas, 1994). E a ideia atual é utilizar referências artísticas de várias épocas e as adequar ao funcionalismo da construção, como demanda a construção civil moderna, não apenas o belo – mas também o funcional. 

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